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BULLYING? O QUE É ISSO COMPANHEIRO?
Professor Marcello Vargas
A sociedade atual é pluricultural e diversificada quanto a sua formação educacional fundamentada em uma era digital e veloz, cujos conceitos e valores mudam com a rapidez de bytes, gigabytes e megabytes. Inseridos nesse processo encontramos o sistema da educação formal fundamentado em preceitos e valores construídos nos ideais de moral e ética buscando a formação do cidadão de forma holística; que geralmente entra em contraponto com a rapidez da diversidade de valores da sociedade atual, ou até mesmo a diversidade de valores da família que está inserida neste contexto.
É notório que o maior desafio da educação formal, nos dias de hoje, não é simplesmente o desenvolvimento do potencial cognitivo e a construção de conhecimento bem como as variáveis externas que envolvem esse processo e sim a habilidade da resolução de conflitos para que esse processo atinja um nível de excelência aceitável. O educador que não estiver preparado para lidar com essas situações no processo educacional enfrentará muitas barreiras, as quais quando impostas podem refletir o seu sucesso profissional e até mesmo frustrações pessoais. Dentre as várias situações que envolvem esse contexto destacaremos nesse artigo uma de relevante importância :o bullying e as ações ocasionadas pelos alunos desafiadores. Conforme aluno a palavra inglesa Bullying ainda não tem uma tradução para o português, mas o termo poderia ser associado ao seu significado original “tirania, ameaça ou intimidação”, e, embora seja ainda pouco conhecida, refere-se a uma prática freqüente nas escolas mundiais.
O primeiro a relacionar a palavra ao fenômeno foi Dan Olweus, professor da Universidade de Noruega. Ao pesquisar as tendências suicidas entre adolescentes, Olweus descobriu que a maioria desses jovens tinha sofrido algum tipo de ameaça e que, portanto, bullying era um mal a ser combatido. Bullying são todas as formas de atitudes agressivas intencionais e repetitivas que ridicularizam o outro. Atitudes como comentários maldosos, apelidos ou gracinhas que caracterizam alguém, e outras formas que causam dor e angústia, e executados dentro de uma relação desigual de poder que são características essenciais que tornam possível a intimidação da vítima.O Bullying é um problema mundial, é encontrado em qualquer escola, não restringindo um tipo específico de instituição. O bullying começou a ser pesquisado há cerca de dez anos na Europa. Geralmente, os pais e a escola não davam muita atenção para o fato, que geralmente achavam as ofensas bobas demais para terem maiores consequências, o jovem recorria a uma medida desesperada, muitas vezes sem volta.
Após vários estudos de vários setores envolvidos com o processo educacional constatou-se a sala de aula e o horário do recreio como os locais de maior incidência desse tipo de violência. Contudo, como isso ocorre dentro de um ambiente educacional o qual se preza pela formação moral, social e cognitiva do principal produto do seu fim, o ser humano? Como os educandos se envolvem nesse processo?Conforme vários teóricos que abordam o comportamento do bullying os protagonistas são indivíduos que, na maioria das vezes ,não possuem empatia e, geralmente são fruto de um ambiente familiar desestruturado ,nos quais há carência de relacionamento afetivo. Os pais de um protagonista de bullying não possuem um acompanhamento eficiente ou possuem voz ativa sobre ele, alguns são tolerantes e permissivos apresentando solução para resolução de conflitos o comportamento agressivo, explosivo e excludente.
Acredita-se que praticantes de bullying têm grande probabilidade de se tornarem adultos com comportamentos anti-sociais ou violentos, podendo, até mesmo, adotar atitudes delinquentes ou criminosas que manifestam-se de várias formas. Você já pensou que a corrupção e os corruptos podem surgir de um processo como esse? Já as vítimas ,geralmente, são pessoas ou grupos que são prejudicados ou que sofrem as consequências dos comportamentos de outros e que não têm autonomia e voz ativa ou , habilidades para reagir ou cessar as ações prejudiciais que são impostas. A vítima do bullying ,geralmente, tem um estereótipo constante ligado a traços de pouca sociabilidade, introspecção ,fragilidade física e são permeados de um forte sentimento de insegurança que os proporciona uma situação de impotência, impedindo-os de solicitar ajuda. São pessoas com uma auto-estima baixa ou sem esperanças quanto às possibilidades de aceitação em um grupo. A situação se agrava quando alguns creem que realmente são merecedores do que lhes é imposto. As vítimas do bullying têm poucos amigos, são passivos, inertes e não reagem efetivamente aos atos de agressividade sofridos. Muitos passam a ter baixo desempenho escolar, resistem ou recusam-se a ir para a escola, chegando a simular doenças. Trocam de colégio com frequência, ou abandonam os estudos. Há jovens que, por extrema depressão acabam tentando ou cometendo suicídio.
Note que o agressor também precisa cometer a ação de bulliyng por alguma compensação a ser suprida ,talvez pela carência familiar. No momento que um protagonista do bullying passa a atuar, ele torna-se o centro das atenções ganhando popularidade, reconhecimento e status em relação a uma vítima que lhe atinge psicologicamente pela sua maneira de ser e conviver. Para um ator do bullying sempre existe uma platéia ativa que o reforça. Não existe espetáculo sem platéia.
Quando falamos e escrevemos sobre bullying adentramos em um mundo pouco conhecido ,tanto para nós “leigos” ou profissionais envolvidos na área médica ou educacional , contudo já que sabemos um pouco dessa “gota” dentro do oceano meu principal objetivo e deixá-lo atento para esse fato. Professores, pais, alunos ,enfim , a comunidade escolar como um todo, devemos atentar para ocorrência de bullying e, sempre buscar ajuda para viabilizar situações e ações que erradiquem esses conflitos. Os pais são parte integrantes nessas ações e ,com certeza, nos seus momentos familiares detectam comentários dos filhos em relação aos colegas ou até mesmo percebem a mudança de comportamento das crianças quando sofrem bullying. Lembre! Todos nós somos responsáveis!
REFERÊNCIAS
BEAUDOIN,Marie Nathalie. Bullying e desrespeito:como acabar com essa cultura na escola.Porto Alegre:Artmed, 2006
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NA TRILHA DA LEITURA:
Intercâmbios entre editor, escola, professor e aluno
Ana Paula Charão
Mestre em Teoria da Literatura
O vínculo entre o universo editorial, os programas de leitura e a instituição escolar definem, segundo Vera Teixeira de Aguiar (2006), a circulação da literatura na escola. De acordo com essa circulação, cria-se a ambiência necessária para a construção da imagem do livro como objeto cultural por parte do leitor. O trânsito do livro disponibiliza um acervo que deve satisfazer critérios de ordem econômica, promover valores ético-estéticos e fomentar o diálogo entre editoras e o projeto político-pedagógico de cada escola. Dessa forma, quando o livro literário chega às mãos do aluno, ele já representa uma escolha de valores em que interagem gestores, direção pedagógica e coordenadores da área de leitura. Promover a leitura literária é, pois, o trabalho do educador em sala de aula. Quando esse trabalho é bem sucedido, a circulação do livro na escola completa um ciclo em que o aluno percebe, enfim, o livro não apenas como um objeto de valor material ou como um bem simbólico valorizado pela sociedade, mas inacessível ao jovem; e sim como um bem cultural ao qual todos têm direito.
Este é o trabalho que vem sendo realizado, desde 2005, na Escola Vicente Pallotti com o apoio da direção pedagógica representada na figura da professora Glacy Zambom. A partir da Dissertação de Mestrado nomeada A Hermenêutica em sala de aula: uma proposta para o ensino da literatura na 8a série, defendida na Pontifícia Universidade Católica do Rio grande do Sul (PUCRS), neste mesmo ano, passou-se a promover, nessa escola, a circulação da obra de arte literária dentro de cada sala de aula da escola. Esse projeto de trabalho com a leitura tem como objetivo promover o livro enquanto capital cultural, inserindo a leitura literária em um plano multidisciplinar.
A proposição da presente metodologia de ensino de literatura nasceu da sondagem das experiências de leitura realizadas em sala de aula na Escola Vicente Pallotti desde 2000. Considerando a tradição escolar, que, na maioria das vezes, utiliza o texto literário apenas para o estudo da gramática tradicional; o desafio enfrentado foi o de trabalhar a obra literária desvinculada do ensino metalingüístico da Língua Portuguesa. Assim, a necessidade de um método de ensino capaz de articular o texto enquanto discurso e a condição histórica e a função social da Literatura em seu vínculo institucional com a Escola foi colocada em discussão.
Tendo em vista uma visão política da educação, no estudo realizado foi ressaltado o conceito de “currículo oculto”, desenvolvido por Michael Apple (1999). Segundo Apple, o currículo escolar sempre é ideológico. Em se tratando de Escola, não há escolhas neutras: desde a seleção de conteúdos de cada disciplina até a disposição física dos alunos em sala de aula, passando pelo número de horas em que os alunos permanecem em sala de aula, tudo é programado a fim de direcionar o público discente para o exercício das funções de uma determinada classe social. Nesse sentido, defende-se o argumento de que a presença de um educador em uma sala de aula é um estar do ser no mundo que também possui um comprometimento político, principalmente em um contexto no qual a família já não dá mais conta de promover o entendimento da complexidade dos valores culturais que estão em jogo.
Assim, a formulação dessa proposta metodológica tem por base a relação institucional entre escola, família e formação de leitores no mundo contemporâneo. Nos dias de hoje, o ambiente familiar não parece ser mais um espaço que priorize a prática da leitura individual ou compartilhada, uma vez que oferece uma série de opções de lazer de outras mídias, tais como televisão, vídeo, DVD e computador, entre outras. Os pais trabalham em jornadas exaustivas, diferentemente da realidade dos séculos XVIII, XIX; e, em grande parte, do século XX, em que a mãe (de classe média) trabalha apenas como dona de casa e dispõe de tempo para ler e contar histórias para os filhos. Aliás, a literatura, no caso, o romance, no século XIX, nasceu do folhetim de jornal que apresentava histórias em capítulos. Essas histórias eram direcionadas ao público feminino, constituindo um momento singular da história da vida privada, no qual se forma a relação leitor, obra e leitura silenciosa.
Sendo um processo absolutamente interior, a leitura não encontra caminhos fáceis em uma cultura tipicamente oral como a brasileira em que, no início do século XX, grande parte da população migrara do interior para a cidade. A literatura de Monteiro Lobato, por exemplo, integra a oralidade e a escrita, trazendo esse tema para dentro da escola. Nesse sentido, a Escola, em diferentes períodos, tem sido responsável pela promoção da leitura e pela socialização do conhecimento advindo do contato com o texto literário e a cultura popular.
Considerando a riqueza produzida pelo encontro entre culturas, a estratégia apresentada, neste estudo, aponta para a importância da desautomatização do olhar do leitor, considerando o contato com a Literatura. À obra literária é atribuída a capacidade de provocar estranhamento; e o valor estético permite a descoberta de inúmeros sentidos presentes em um texto. A estratégia do estranhamento também possui um sentido ético, pois permite a autonomia do leitor, uma vez que, segundo Hans Rober Jauss (2002), criador da Estética da Recepção, a mesma surge da distância estética dos horizontes de expectativa em questão.
O Método Recepcional postula que a interação texto-leitor funciona como um diálogo entre ambos, em um ato de comunicação legítimo. A proposta de ensino da Estética da Recepção segue cinco etapas, a saber:
a) Determinação do horizonte de expectativa;
b) Atendimento do horizonte de expectativa;
c) Ruptura do horizonte de expectativa;
d) Questionamento do horizonte de expectativa;
e) Ampliação do horizonte de expectativa
Em síntese, a interação texto-leitor força o leitor a interferir criadoramente no texto, preenchendo suas lacunas. A atitude de interação tem como pré-condição o fato de que texto e leitor estão mergulhados em horizontes históricos (muitas vezes distintos e defasados) que se fundem, criando uma nova comunicação. Logo, o método recepcional enfatiza a comparação entre o familiar e o novo, entre o próximo e o distante no tempo e no espaço. O processo de trabalho apóia-se no debate constante, considerando todas as suas formas: oral, escrita, sob forma de monólogo interior, com os colegas, com o professor, com a comunidade.
Logo, este estudo fundamenta-se na tese de que a vida histórica da obra literária não pode ser concebida sem a participação ativa do leitor. O caráter histórico da Literatura pressupõe uma relação dialógica entre a obra e o público, pois através da leitura é que se dá a atualização contínua dos textos, o que garante a historicidade das obras literárias. Para melhor examinar essa questão, procede-se à leitura da obra É tarde para saber (2003), de Josué Guimarães, sendo a mesma atualizada de acordo com a percepção estética dos novos leitores, priorizando-se a etapa da passagem da pré-concepção para a concepção, ou seja, da decodificação de símbolos e metáforas à mediação pela linguagem, se levarmos em consideração a Hermenêutica.
Através da metodologia proposta, este estudo pretende desencadear um processo de autocompreensão do sujeito, em seu trabalho de intérprete do mundo por meio da linguagem, garantindo a autonomia do leitor. Nesse sentido, o texto literário é uma espécie de mediação pela qual o leitor entende a si mesmo, construindo sua subjetividade. Assim, a metodologia leva em conta a filosofia de Paul Ricoeur (1978) quando diz que o leitor se encontra perdendo-se, ou seja, que o leitor se encontra em um outro seja através da personagem, dos espaços, da trama ou dos conflitos apresentados na obra.
O estudo realizado demonstrou que a inclusão da disciplina de Literatura, no Ensino Fundamental, constitui uma ferramenta efetiva na formação de leitores. E devido à sensibilidade da direção pedagógica da Escola, tal disciplina foi incluída, de fato, no currículo do Instituto Vicente Pallotti. Assim, a questão de como trabalhar a obra literária desvinculada do ensino metalinguístico é respondida pela própria circunstância de inclusão da disciplina na escola. A Literatura, ganhando autonomia como disciplina, abre espaço para um trabalho exclusivamente direcionado à formação de leitores. Entretanto, o mero estabelecimento da disciplina não é suficiente para se chegar a uma conclusão acerca de como promover a inclusão cultural dos alunos da oitava série (do Ensino Fundamental) através do contato com textos e obras literárias, uma vez que a leitura em sala de aula, sem uma metodologia adequada, se torna inócua e pode até mesmo se tornar perniciosa, levando à falsa idéia de que o livro é um objeto cultural incompreensível ou inacessível. Assim, na busca de uma metodologia adequada, chegou-se à Hermenêutica e à Estética da Recepção como aportes capazes de configurar um espaço teórico de onde emergem novos horizontes para o trabalho de leitura e interpretação do texto literário.
No decorrer do trabalho, a busca pela autonomia semântica do texto e pelo encontro do ser no texto se torna tão relevante quanto à abordagem recepcional. Assim, ambas as teorias oferecem subsídios importantes para o processo de contextualização histórica da obra literária. A Hermenêutica apresenta elementos consistentes que permitem investigar a relação entre sujeito e texto literário, justamente por focar a rede de possibilidades de significado do texto, garantindo ao leitor um papel ativo de construtor de significados não apenas no texto, mas que se estende a suas leituras de mundo.
Logo, a Hermenêutica complementa o enfoque do Método Recepcional, uma vez que, para a Estética da Recepção, o leitor acaba por se tornar uma espécie de entidade abstrata, diluída na história da recepção da obra, sendo visto meramente como parte de um público que forma a história da recepção da obra. Assim, a Hermenêutica é um referencial indispensável para a metodologia buscada, se utilizada não como um instrumento de “caça à mensagem que o professor julga correta”, mas como metodologia que abre espaço para atividades que levam o aluno a relacionar o texto com outras linguagens, verbais ou não verbais, e a encontrar pontos de intersecção entre o seu mundo e o mundo do texto. Durante as atividades realizadas, por exemplo, os alunos relacionaram a obra É tarde para saber à canção Paisagem na Janela, de Lô Borges; recriando o imaginário dos Anos de Chumbo, período no qual a trama da obra de Josué Guimarães é contextualizada. Além disso, alguns aspectos da temática de É tarde para saber foram relacionados a obras de arte visual: o tema do amor interdito, por exemplo, foi associado à observação de uma reprodução da obra O Beijo, de Gustav Klimt.
Na proposta metodológica Hermenêutica em sala de aula, o elemento centralizador não é o professor, mas o texto. O trabalho do professor como mediador, visa estabelecer uma relação entre texto e leitor de forma prazerosa e significativa. Para chegar à formulação desta proposta, partiu-se da pesquisa dos pressupostos teóricos, enfocando primeiramente a relação entre a escola e a formação de leitores. Observando os elos entre espaço escolar e espaço familiar, desde a formação da Instituição Escola, até os nossos dias, é possível observar que, cada vez mais, a escola tem em suas mãos a tarefa de formar leitores.
Nessa circunstância, a escola não pode negar aos alunos o contato efetivo com o texto literário. Professores, bibliotecários e coordenação pedagógica têm o dever social de se unirem em prol da formação de leitores. Por esse motivo, foram observadas pela pesquisadora as possibilidades de ampliação dos horizontes de leitura através do texto literário, destacando a contribuição da Estética da Recepção na formação desses leitores. Foi ainda verificado um mundo de possibilidades de contribuição da Hermenêutica em sala de aula, tais como a relação ontológica que o texto fornece ao leitor e a possibilidade de autonomia estética através da compreensão.
A partir da análise dos dados coletados, os horizontes de leituras dos alunos da oitava série do Instituto Vicente Pallotti foram observados: nos questionários aplicados como sondagem inicial para o desenvolvimento do estudo, muitos alunos responderam não lembrar de atividades significativas relacionadas a leituras, muito embora, anteriormente, tenham respondido que a escola era o lugar onde mais liam: tais respostas podem ser percebidas como um indicativo de que, apesar de haver um trabalho com literatura na escola, a metodologia até então utilizada para o ensino de literatura não teve relevância na vida dos alunos.
A proposta metodológica elaborada partiu do conhecimento da realidade desses alunos e busca a ampliação dos horizontes de leitura desse público. Foi observado que o professor que busca um embasamento teórico consistente tem condições de elaborar uma proposta metodológica que atenda à necessidade de seus alunos, estabelecendo um vínculo significativo entre aluno e texto literário, levando-o à busca progressiva de textos mais complexos, o que resulta na ampliação dos horizontes de expectativa do indivíduo. Para que essa ampliação de horizontes torne-se uma realidade na sala de aula, é preciso que a proposta metodológica apresentada seja aplicada, o que não foi praticável em função do escasso tempo para a realização da pesquisa.
Ao defender a Dissertação apontei para o fato de que, em estudos futuros, desejava que a proposta metodológica fosse efetuada em sala de aula e que seus resultados pudessem ser observados, registrados e discutidos. Assim, o estudo realizado poderia ser uma via de acesso para a elaboração de outras propostas metodológicas, seja pela própria pesquisadora, seja pelos demais profissionais interessados na formação de leitores.
Na continuidade do trabalho realizada pela pesquisadora, foi observado que, para a evolução da metodologia, era importante discutir o caráter dinâmico do intercâmbio entre o universo editorial, os programas de leitura e a instituição escolar (e seu vínculo com a família), pois estas instâncias definem a circulação da literatura na escola. Hoje, é impossível pensar na formação do leitor sem que ocorra a interação entre os agentes literários e os fomentadores da política educativo-cultural na escola. Não basta, porém, apenas compor um bom acervo, a intervenção que tem sido praticada nos mais variados âmbitos e projetos de leitura apontam para a capacitação do professor.
Tal capacitação tem por objetivo demonstrar o quanto o conhecimento global e estético que a literatura propicia permite que os grupos possam compartilhar experiências de vida em um trabalho interdisciplinar. Nesse sentido, os preceitos da Estética da Recepção bem como da Hermenêutica, apontam para a importância de o educador valorizar a visão de mundo do leitor e, a seguir, em etapas sucessivas, o trabalho desenvolvido deve apresentar caminhos que permitem que a criança ou o jovem alargue essa visão através dos universos ficcionais.
Fruto da investigação que prossegue, em um trabalho realizado com o livro O jovem de Liverpool, de Caio Ritter (2006), depois de seguir todas as etapas do método recepcional, foi oportunizado aos jovens o confronto de suas leituras com a leitura do autor. O debate foi divertido e instigante, pois ora os alunos faziam perguntas para o escritor, ora os mesmos leitores questionavam o narrador. Isso demonstra o quanto os jovens se identificaram com o personagem, brigando com ele e questionando suas atitudes a ponto de argumentar: “A maior parte do livro, o cara passou sentindo pena dele mesmo. Tu não achas que faltaram páginas para ele mudar tão de repente e chegar à outra conclusão?” O escritor, entusiasmado, respondia: “Eu não havia pensado nisso”. Dessa forma, o método proposto é algo vivo que encanta e forma leitores.
Visando ampliar a circulação do livro na escola também foi importante incluir, na promoção da obra de arte literária, aspectos atinentes à sociologia da leitura. Nesse sentido, foi associada, ao método desenvolvido na Dissertação, a discussão de aspectos editorias de uma obra. Isso vem configurando um novo projeto dentro do projeto inicial que tem permitido gerar novas intervenções na escola. Assim, associada à livraria Guerra de letras que, hoje, existe dentro da Escola Vicente Pallotti, circula um projeto que apresenta o livro literário enquanto objeto editorial.
Este mesmo projeto tem suscitado oficinas e assessorias pedagógicas em diferentes escolas. Um caso interessante é a assessoria prestada na Escola Pastor Dohms. Nessa escola, foram realizadas duas oficinas para alunos de quinta e de oitava série do Ensino Fundamental. Na quinta série, o livro trabalhado foi Quem tem medo de Demétrio Latov?, de Ángeles Durini. No início da conversa, dois alunos questionaram a verossimilhança do protagonista, dizendo que as atitudes do personagem eram estranhas e sem sentido. De forma desordenada e o com entusiasmo caracteristico dessa faixa etaria (quando lhes e permitida a expressão oral) debateram sobre a questão da suposta anormalidade do protagonista, elencando as singularidades de Demétrio e verificando que muitas dessas singularidades estavam presentes no cotidiano dos leitores; e chegando, por conta própria, à conclusão de que o conceito de normalidade pode ser relativizado. Muitos verbalizaram que já tiveram um lobo como animal de estimação (tal como Demétrio) e que conheciam pessoas que conversavam com mortos (assim como os familiares do protagonista). Em uma determinada cena da obra, o protagonista, passando em frente a um espelho, não consegue enxergar sua própria imagem. Retomando essa cena com os alunos, foi-lhes solicitado que desenhassem um espelho mostrando o que Demétrio havia visto no lugar de seu reflexo: os alunos desenharam o modo como supunham que o personagem se via internamente, projetando sua auto-imagem (enquanto leitores) no reflexo do personagem.
Na oitava série, a obra selecionada foi Como peixe no aquário, de Menalton Braff. Foram trabalhados, com os alunos, os aspectos gráfico-editoriais do livro, tais como a diagramação, a ilustração da capa e o logotipo da série em que a obra está inserida (Barco a vapor). A discussão com os alunos partiu do título da obra. Aos alunos cabia desvendar o motivo da escolha desse título, relacionando-o com a história de vida da personagem. Os alunos demonstraram ter apreendido o sentido simbólico do título, observando que a personagem se sentia, de fato, como um peixe em um aquário, ou seja, presa a suas escolhas equivocadas (a partir do momento em que comete o roubo, toda sua vida passa a girar em torno desse desvio de conduta). A imagem da capa, segundo a leitura dos alunos, reforçou o sentido da expressão verbal que intitula a obra. Nessa imagem, uma menina de braços e pernas abertas aparece sobre um fundo vermelho marcado por linhas curvas azuis que remetem a água (todos os alunos compreenderam as linhas azuis como uma representação de água). A cor vermelha foi associada, pelos alunos, à paixão e à sexualidade. A água, ambiente no qual a figura feminina se encontrava, foi compreendida pelos alunos como seu ambiente (seu “aquário”).
O logotipo da série Barco a Vapor foi associado ao processo de leitura como viagem a outros mundos. Os alunos observaram, inclusive, que o fato de o barco ser a vapor propicia a lentidão necessária para a introspecção da leitura, opondo-se ao ritmo frenético que a vida contemporânea encerra.
Nas duas turmas trabalhadas, o processo de interpretação dos alunos teve início já na capa das obras literárias, o que revela que os alunos são capazes de unir as habilidades de ler visualmente (características do contato com a mídia eletrônica) com a leitura textual.
Nas duas turmas do colégio Pastor Dohms, verificou-se que a leitura adquiriu um sentido mais amplo quando se criou uma ambiência para a discussão entre os indivíduos, resultando na ampliação dos horizontes de expectativa através da voz de cada colega. Assim, o trabalho que começou, em 2000, na Escola Vicente Pallotti – e foi sistematizado na Dissertação A Hermenêutica em Sala de Aula, em 2005 – propõe-se como um Projeto educativo-cultural que se mantêm aberto às demandas da escola. E tem sido objeto de recriação em diferentes âmbitos conforme as necessidades que o professor, a escola, a família e a comunidade enfrentam em uma cultura globalizada.
REFERÊNCIAS
AGUIAR, Vera Teixeira de. Territórios da leitura, da literatura aos leitores. São Paulo: Cultura Acadêmica; Assis, SP. : Anep, 2006.
APPLE, Michael. Ideologia e currículo. Portugal: Porto, 1999.
BRAFF, Menalton, Como peixe no aquário. São Paulo: SM, 2004.
DURINI, Ángeles. Quem tem medo de Demétrio Latov. São Paulo: 2000,
GUIMARÃES, Josué. É tarde para saber. Porto Alegre: L& PM, 2003.
LIMA, Luis Costa. A literatura e o leitor: textos da estética da recepção. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
RICOEUR, Paul. O conflito das interpretações: ensaios de hermenêutica. Rio de Janeiro: Imago, 1978.
RITTER, Caio. O rapaz que não era de Liverpool. São Paulo: SM, 2006.
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